domingo, 8 de março de 2026

MULHER 'GUERREIRA' É O NOME QUE DÃO PARA QUEM O ESTADO ABANDONOU

Entre o tanque e a luta por direitos, a mulher brasileira carrega o país nas costas enquanto o Estado olha para o outro lado.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política

Chega de romantizar o sofrimento das brasileiras.

Abra o olho e veja a realidade: ser mulher no Brasil de 2026 ainda é, infelizmente, um ato de resistência diária. Não é mimimi, é estatística no lombo de quem acorda às 4 da manhã para pegar um ônibus lotado e ainda tem que ouvir gracinha ou sofrer assédio antes mesmo de chegar ao trabalho. A gente fala de um país que se diz moderno, mas que ainda trata a mão de obra feminina como "barata" e descarta a nossa segurança como se fosse um detalhe sem importância nas planilhas de governo.

A violência doméstica não é apenas um número frio no jornal; é o grito sufocado na casa ao lado que ninguém quer ouvir. O feminicídio é o topo de um iceberg de agressões que começam no controle emocional e terminam no sangue. No nosso Maranhão, sabemos bem como a falta de uma rede de apoio real deixa as companheiras desprotegidas. Onde estão as delegacias da mulher que funcionam 24 horas em todos os municípios? Onde está o acolhimento digno para quem decide denunciar o agressor e não tem para onde ir com os filhos?

E por falar em filhos, vamos tocar na ferida de quem sustenta essa nação: as mães solo. Milhões de brasileiras carregam o peso da casa sozinhas, sem a pensão do pai ausente e sem a creche de qualidade que deveria ser garantida pelo poder público. É a mulher invisibilizada, que limpa o chão do escritório de quem ganha dez vezes mais que ela, enquanto se preocupa se o arroz vai dar até o fim do mês. A desigualdade salarial é um tapa na cara de quem faz o mesmo serviço, ou até mais, e recebe menos só por não ser homem.

O conservadorismo excludente adora usar a imagem da "família" para nos oprimir em palanques, mas na hora de garantir o direito ao próprio corpo ou à dignidade básica, esses mesmos políticos somem. Querem ditar como devemos agir, vestir e pensar, usando a moralidade como chicote para manter a mulher submissa. Mas a verdade é que o país só não parou ainda porque a gente não deixa a peteca cair, mesmo sendo as primeiras a serem demitidas em crises e as últimas a serem ouvidas em mesas de decisão.

O que significa ser mulher hoje? É viver em estado de alerta constante. É ter que ser forte o tempo todo porque a fragilidade nos custa a vida. Precisamos parar com o romantismo barato de dizer que a mulher é "guerreira". Ninguém quer ser guerreira por obrigação; a gente quer é ter paz, segurança e direitos respeitados na prática. Chega de tapinha nas costas e flores no dia 8 de março enquanto o orçamento para proteção à mulher é cortado em Brasília e nas capitais.

A solução não virá de promessas vazias. Precisamos de creches em tempo integral para que a mulher possa trabalhar, delegacias especializadas abertas ininterruptamente e, principalmente, uma reforma trabalhista que puna severamente as empresas que pagam salários desiguais. A pergunta que fica para os poderosos é: até quando o progresso do Brasil vai ser construído em cima do sacrifício e do silêncio das mulheres?

0 comentários:

Postar um comentário

Buscar no Site