Entre o tanque e a luta por direitos, a mulher brasileira carrega o país nas costas enquanto o Estado olha para o outro lado.
Por: Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política
| Chega de romantizar o sofrimento das brasileiras. |
Abra o olho e veja a realidade: ser mulher no Brasil de 2026 ainda é, infelizmente, um ato de resistência diária. Não é mimimi, é estatística no lombo de quem acorda às 4 da manhã para pegar um ônibus lotado e ainda tem que ouvir gracinha ou sofrer assédio antes mesmo de chegar ao trabalho. A gente fala de um país que se diz moderno, mas que ainda trata a mão de obra feminina como "barata" e descarta a nossa segurança como se fosse um detalhe sem importância nas planilhas de governo.
A violência
doméstica não é apenas um número frio no jornal; é o grito sufocado na casa ao
lado que ninguém quer ouvir. O feminicídio é o topo de um iceberg de agressões
que começam no controle emocional e terminam no sangue. No nosso Maranhão,
sabemos bem como a falta de uma rede de apoio real deixa as companheiras
desprotegidas. Onde estão as delegacias da mulher que funcionam 24 horas em
todos os municípios? Onde está o acolhimento digno para quem decide denunciar o
agressor e não tem para onde ir com os filhos?
E por falar
em filhos, vamos tocar na ferida de quem sustenta essa nação: as mães solo.
Milhões de brasileiras carregam o peso da casa sozinhas, sem a pensão do pai
ausente e sem a creche de qualidade que deveria ser garantida pelo poder
público. É a mulher invisibilizada, que limpa o chão do escritório de quem
ganha dez vezes mais que ela, enquanto se preocupa se o arroz vai dar até o fim
do mês. A desigualdade salarial é um tapa na cara de quem faz o mesmo serviço,
ou até mais, e recebe menos só por não ser homem.
O
conservadorismo excludente adora usar a imagem da "família" para nos
oprimir em palanques, mas na hora de garantir o direito ao próprio corpo ou à
dignidade básica, esses mesmos políticos somem. Querem ditar como devemos agir,
vestir e pensar, usando a moralidade como chicote para manter a mulher
submissa. Mas a verdade é que o país só não parou ainda porque a gente não
deixa a peteca cair, mesmo sendo as primeiras a serem demitidas em crises e as
últimas a serem ouvidas em mesas de decisão.
O que
significa ser mulher hoje? É viver em estado de alerta constante. É ter que ser
forte o tempo todo porque a fragilidade nos custa a vida. Precisamos parar com
o romantismo barato de dizer que a mulher é "guerreira". Ninguém quer
ser guerreira por obrigação; a gente quer é ter paz, segurança e direitos
respeitados na prática. Chega de tapinha nas costas e flores no dia 8 de março
enquanto o orçamento para proteção à mulher é cortado em Brasília e nas
capitais.
A solução não virá de promessas vazias. Precisamos de creches em tempo integral para que a mulher possa trabalhar, delegacias especializadas abertas ininterruptamente e, principalmente, uma reforma trabalhista que puna severamente as empresas que pagam salários desiguais. A pergunta que fica para os poderosos é: até quando o progresso do Brasil vai ser construído em cima do sacrifício e do silêncio das mulheres?




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