sexta-feira, 6 de março de 2026

A ÉTICA DE VITRINE E A FOME NOS QUINTAIS

Quando o moralismo de ocasião serve de biombo para a perpetuação da desigualdade brasileira.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

Ética sem justiça social é apenas maquiagem
para esconder a fome.

Não há ética pública possível sem o enfrentamento direto da exclusão. Uma sociedade que se pretende moral, mas convive pacificamente com a miséria extrema sob o pretexto da austeridade fiscal, é uma sociedade doente de cinismo. A verdadeira ética não habita o discurso inflamado sobre a vida alheia, mas sim a prática incessante de garantir dignidade aos invisíveis. No fim das contas, como sempre digo, o moralismo sem justiça social é apenas estética para esconder a barbárie.

É curioso notar como o conceito de ética pública, no Brasil contemporâneo, tornou-se uma espécie de adereço de luxo, usado apenas em ocasiões de gala política ou para apedrejar o adversário de plantão. Enquanto os arautos da moralidade se esgoelam em tribunas, defendendo pautas de costumes que mal arranham a superfície da realidade, o abismo social brasileiro continua a ser alimentado pelo silêncio cúmplice daqueles que preferem o dogma à justiça social.

A hipocrisia, esse lubrificante tão comum nas engrenagens do poder, nunca esteve tão em voga. Vemos figuras que se dizem baluartes da família e da fé ignorarem solenemente a desnutrição que bate à porta das periferias de São Luís ou o desmonte sistemático de políticas de assistência social. Para esses paladinos da retidão, a ética termina onde começa o direito do outro de ter o que comer; a moralidade deles é seletiva, voltada apenas para o que acontece entre quatro paredes, nunca para o que falta na mesa do trabalhador.

O bolsonarismo, em sua essência mais crua, refinou essa técnica de distração em massa. Ao elevar o debate moral ao status de política de Estado, conseguiu a proeza de tornar invisível a urgência das pautas sociais. Fala-se de valores transcendentais para não ter que discutir o preço do feijão ou a precarização do trabalho. É a ética do espantalho: agita-se um inimigo imaginário no campo dos costumes para que ninguém perceba o saque que ocorre nos cofres do bem-estar coletivo.

Historicamente, a elite brasileira sempre utilizou o verniz da religiosidade para manter o status quo. A instrumentalização da fé não é um fenômeno novo, mas sua sofisticação atual, aliada à máquina de fake news, criou um cenário onde a mentira piedosa vale mais que a verdade incômoda. Questionar a eficácia de um programa de transferência de renda torna-se, na boca desses atores, um ataque aos 'valores cristãos', uma inversão lógica que faria qualquer teólogo sério corar de vergonha e indignação.

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