quinta-feira, 26 de março de 2026

A FARDA QUE OPRIME E A COVARDIA QUE SE FANTASIA DE AUTORIDADE

O episódio de violência policial em escola do Rio revela o abismo entre a segurança pública e o direito à integridade dos jovens.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política

A covardia fardada que alguns ainda insistem em aplaudir.
O vídeo que circula pelas redes sociais não é apenas um registro de violência; é o retrato de um sistema falido que trata o ambiente escolar como zona de guerra e o estudante como inimigo. Na Zona Sul do Rio de Janeiro, um agente do programa Segurança Presente decidiu que a resposta adequada para adolescentes que denunciavam assédio sexual era a agressão física. Ao atingir dois estudantes e a presidente da Associação Municipal dos Estudantes Secundaristas (Ames), o policial não apenas abusou de seu poder, mas escancarou um despreparo emocional e técnico que deveria desqualificá-lo imediatamente para o serviço público.

É estarrecedor que a direção de uma escola estadual, ao ser confrontada com denúncias graves de assédio contra um professor, escolha acionar a força policial em vez de acolher as vítimas. A polícia foi chamada não para garantir a segurança, mas para silenciar o grito legítimo de jovens que buscavam justiça. O resultado foi uma cena de covardia explícita: um homem armado e treinado investindo contra adolescentes desarmados. A tentativa de apreender os celulares dos alunos para impedir a filmagem é a prova cabal de que o agressor tinha plena consciência da própria irregularidade.

Esse comportamento não nasce no vácuo. Ele é alimentado por uma estética de 'militar brabão', herança de uma ficção que glorifica a truculência e transforma a estupidez em virtude. Vivemos em uma sociedade que, doentiamente, aplaude o soco no rosto de um jovem sob o pretexto da 'ordem'. Nos comentários das redes sociais, uma parcela da população — majoritariamente masculina — busca justificar o injustificável, questionando o que os alunos teriam feito para 'merecer' a agressão. Não há 'mas' que sustente a violência de um agente do Estado contra uma criança ou adolescente sob sua custódia.

O que vemos é a emulação de um heroísmo torto, onde a autoridade só é exercida contra quem é fisicamente inferior. Esse policial que se sente potente ao acuar uma estudante é o mesmo que, em situações de real perigo e estresse, muitas vezes perde o controle por falta de formação adequada. A segurança pública brasileira precisa, com urgência, de uma reforma que priorize a mediação de conflitos e o respeito aos direitos humanos, especialmente dentro de instituições de ensino que deveriam ser santuários de cidadania.

Não podemos normalizar o absurdo. Aqueles que hoje defendem a ação desse policial certamente clamariam por justiça se as vítimas fossem seus próprios filhos. A proteção e o bem-estar dos vulneráveis são pilares de qualquer democracia funcional, e o Estado não pode ser o primeiro a violar esses princípios. Enquanto a violência for celebrada como método de controle social, continuaremos falhando com as próximas gerações. Exigimos punição rigorosa e uma mudança estrutural na forma como nossas polícias enxergam a juventude periférica e estudantil.

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